O restaurante mais antigo do Brasil

O expert em História da Alimentação e um dos principais nomes desta área em Portugal, Virgílio Nogueiro Gomes, visitou o Brasil e conheceu o Restaurante Leite, em Recife, que abriu as portas em 1882. Entre bolinhos de bacalhau, pastéis de nata e louça Vista Alegre, ele relata a experiência história e gastronômica.

Quando entrei pela primeira vez neste restaurante pareceu-me, repentinamente, que não estava no Brasil. A sobriedade e elegância do local, a forma como fui atendido e depois servido, surpreenderam-me apesar de já ter lido muito sobre este estabelecimento.

Uma das razões para visitar a cidade de Recife era conhecer este restaurante identificado como o mais antigo do Brasil. Fundado em 1882 por Armando Manoel Leite da França, emigrante português, iniciou a sua atividade num pequeno quiosque com o nome de Restaurante Manoel Leite. Atendendo a simpatia do seu proprietário e à qualidade da sua comida, granjeou prestígio rápido e adquire um novo espaço para instalação do restaurante.

Nesta reabertura a preocupação de requinte foi grande e teve todo o material importado da Europa. A louça era inglesa, as taças e copos do mais fino cristal bacará francês, os talheres de prata Christoffle e as toalhas de damasco francês. Com esta abertura a cidade do Recife ganhava então, o seu primeiro restaurante à altura da sociedade da época. 

Os frequentadores representavam a sociedade de elite e vinham rigorosamente vestidos de paletó e gravata, as senhoras e senhoritas trajavam a mais requintada moda de Londres. Claro que o restaurante refletia e acompanhava os momentos mais delicados da história da política do Brasil, desde a abolição da escravatura, queda do Império e instalação da República.

Na primeira década do século XX, a crise económica apanha o Restaurante Leite e o seu proprietário decide regressar a Portugal com a família e vende o restaurante em 1910. O novo proprietário, Bernardino Wenceslau da Silva, era funcionário da casa e fez questão de dar à sua administração, o mesmo tom de qualidade da anterior, mantendo, traje de passeio obrigatório para o ingresso na casa. Os mesmos utensílios eram mantidos e fazendo a sua reposição sempre que necessário. Contam-se estórias sobre a forma como alguns tentavam, e conseguiam, levar alguns talheres prateados para fora do restaurante.

O segundo proprietário do Leite era um administrador cuidadoso. Manteve o traje branco para os garçons (ainda hoje mantido) e ele próprio, só vestia de branco. Fazia questão de cuidar pessoalmente da compra de frutas e verduras, no Mercado de São José. Anos depois comprou um sítio onde passou a produzir e fornecer estres produtos para o restaurante. Numa descrição do restaurante em 1919 pode ler-se que ao almoço uma orquestra de oito músicos tocava um escolhido repertório. O facto de ser ao almoço, e ter tantos músicos revela a importância do local. A glória do estabelecimento cresceu até que após a II Guerra Mundial e a crise generalizada, decresceu a a clientela. Associado e em simultâneo, problemas de saúde do seu proprietário leva-o a uma decisão drástica: dia 17 de outubro de 1945 anuncia a venda do Restaurante Leite.

Um grupo de personalidades adquire o restaurante tendo como representante dos investidores João Lacerda. Em julho de 1947, e após grandes obras de reforma e ampliação do espaço, reinaugura com grande festa. Rapidamente os clientes tradicionais, e a curiosidade de outros, levam o restaurante a novo período áureo. No entanto, as festas e boémia, e as alterações e instabilidades políticas levou a que, em 1955, a sociedade anônima proprietária do Restaurante Leite ficasse com sérios problemas na gestão que afetavam o funcionamento da casa. Surge então a família Dias e os quatro irmãos adquirem, em maio de 1956, o Restaurante Leite, não sem o local ser classificado de “interesse público” o que permitiu uma diminuição da dívida. No ano seguinte introduzem reformas no local e reabre sem festas. Um novo período de glória iniciava-se. A administração estava bem definida em termos de responsabilidades dos quatro sócios: Amadeu Dias com a contabilidade, Luiz Dias com as relações públicas, Arménio Diogo com a cozinha, e Hugo Laprovítera com a caixa. Nesta época a casa funcionava para almoço e jantar que era servido à luz de velas. É interminável a lista de personalidades que passaram por esta casa. O Presidente de Portugal, Craveiro Lopes, que esteve no Recife a convite do Presidente do Brasil, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, foi honrado com um grande almoço com oitocentas pessoas no Clube Português, mas confecionado pelo Restaurante Leite. Mais tarde, julho de 1996, o ex-Presidente de Portugal, Mário Soares esteve o restaurante e depois de almoçar registou no livro: “O Restaurante Leite é uma instituição portuguesa no Recife.” Ficaram para a história outros banquetes que faziam em outros locais.

Em 1990 organiza um jantar comemorativo do seu centenário (de facto ocorrido oito anos antes). É após este evento de se prepara uma nova e última reforma do local. A preocupação seria não tirar a essência da casa. Vão deixá-la ainda melhor, porque a qualidade do serviço será aperfeiçoada. Em 1992 reabre renovado. Mas, em 1994 faleceu Amadeu Dias e o restaurante passa a ser administrado por Armênio Diogo ajudado pela viúva de Amadeu. Em 1995 a Prefeitura de Recife homenageia oficialmente o Restaurante Leite pela manutenção da tradição e valor histórico como o mais antigo restaurante da cidade.

Os irmãos Dias tiveram um passado profissional importante em Lisboa trabalhando nas pastelarias Áurea, Nacional, Benard e Suissa (infelizmente encerrada definitivamente há cerca de 15 meses). Uma nova geração de descendentes gere agora o restaurante que, em conversa com a brigada de mesa, me garantiram o cuidado de manter a tradição. Fiz três excelentes refeições no Leite. Não se deve ir ao Leite como um restaurante português. Portugal está sempre presente, mas a escolha de pratos vai para além de Portugal. A preocupação é fazer bem feito. Vale a pena ler as opções de arte culinária que podem ver clicando aqui.

Estas informações foram extraídas do livro “O Leite ao Sabor do Tempo – A História de um Restaurante”, de Goretti Soares, editado em 2000 e que, infelizmente se encontra esgotado. No final do livro, Capítulo V, tem um conjunto de depoimentos intitulados “Quem viveu e vive o Leite”. Todos muito importantes, são 32, mas eu permito-me transcrever parte do texto do meu Amigo José Paulo Cavalcanti que, com a sua esposa Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti foram os responsáveis do sucesso da minha estadia em Recife: O Restaurante Leite é um pedaço do Recife… Há dias em que, sentado em velhas mesas e cadeira que são testemunhas mudas do inexorável passar do tempo, penso ver o meu pai, naqueles distantes anos 50… As lembranças acabam sendo inevitáveis, ao se falar do leite, que por aqui tudo é igual. O tempo parece não passar. Até os garços são sempre os mesmos, como se fizessem parte daa paisagem. Por isso vou sempre com meus filhos a esse restaurante que, como a casa do meu avô, parece impregnado de eternidade…

Dispõe de uma excelente garrafeira com bons vinhos portugueses. Repito que o serviço é de uma excelência invulgar e vir ao Leite é uma obrigatoriedade em Recife.

© Virgílio Nogueiro Gomes

Restaurante LEITE / Praça Joaquim Nabuco, 147 / Recife / Pernambuco / Brasil